<$BlogRSDUrl$>

Laboratorio de sonificcoes do coletivo LSD ou um encontro estrategico de pessoas envolvidas pelo desejo de intervencao musical coletiva, num ataque sensorial que mixa eletronica experimental, pos-rock, collage, poesia sonora, nu musique concrete, afrofuturismo, digital hardcore e action sound.

14.10.03


Isto não é um manifesto, antepasto rançoso de um banquete-catástrofe. Como o cachimbo na tela de Magritte não é um cachimbo. Não há mais razão para manifestos desde que a razão se revelou louca e dissolveu-se o abismo entre consciente e inconsciente, indíviduo e história, e fez com que a paranóia se tornasse o estado de consciência mais adequado para encarar esses primeiros momentos da revolução/revelação pós-industrial. O que faz disto aqui um texto de afirmação. Com a promessa única de que para lê-lo você vai precisar, antes de qualquer outra coisa, despir as palavras para melhor comê-las. Códigos. Por toda a parte signos assassinos. E um sino é um signo como um cisne. Entre eles um exercício de crueldade: a máquina de esgoelar cisnes inventada por homens. Sons procuram sentido.




Música Digital Brasileira: MDB


Estas três letras procuram seu sentido sozinhas. O que implica que MDB não é gênero nem onda. Antes: uma abordagem. E antes de tudo, a música, o M nesse lance de sons e dados.

Esta abordagem é múltipla e traz programada em seu interior a sua própria aniquilação. Ela não é original, e desde logo se reconhece como um momento.

Alguém (e nesse caso não convém citar nomes), num outro momento, reivindicou a retomada da linha evolutiva da música brasileira; isso também não foi original, já que se apresenta em solução de continuidade e no âmbito do direito da sucessão ao Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade e à Origem Animal de Deus de Flávio de Carvalho, à leitura da "História do Brasil pelo Método Confuso" de Mendes Fradique, ao suicídio coletivo de Pedra Bonita, à deglutição do Bispo Sardinha, todos estes também 'momentos' de uma grande viagem louca que tem arrastado os guaranis em seu nomadismo rumo ao Leste, preparando-se para o encontro com a "terra sem mal", que por sua vez é apenas um corte rápido e momentâneo no interior de um quadro maior onde, gravada sobre uma das rochas (hoje muito oxidada) que formam o seu escudo pré-cambiano, há uma cabeça de velho que, vista de um ângulo diverso, se transforma num jovem depositário da mitologia, da tradição e dos restos de alguma matriz cultural perdida, como a do povo de um outro livro, na noite dos tempos. Isto está depositado exatamente sobre os solos que ora pisamos, nestes Reinados de Vegetais, nestas cavernas sem nome - herança de um homem que não era precisamente aquele que os primeiros aterrorizadores (e acaso e a quem interessa quem eram ou deixaram de ser?) conheceram quando aqui aterrissaram com suas naus que se convertiam em naves ao desenrolar de velas, tapetes e bispos vermelhões de tão cruentos, leitosos de tão suculentos.

Estes homens viviam em pequenos agrupamentos de 30 a 50 casas subterrâneas. Haviam algumas casas isoladas que, por sua pouca profundidade e proximidade à superfície, funcionavam como postos avançados de controle de tráfego. Desciam cuidadosamente os degraus de pedra implantados nas paredes da rocha, às vezes intercalados com troncos de madeira. Lá dentro, um leito coletivo de pedra e fogo constante, que os entreteve com seu teatro de sombras por fios e mais fios de tempo, até que caíssem exaustos pela sucessão cinemática de imagens despregadas de carretéis sonoros.

No dia que se seguiu, cavamos tudo em redor, e encontramos junto desses agrupamentos uma série de sepulturas elípticas, nas quais, a despeito de nosso empenho, não foi possível encontrar quaisquer restos ósseos. Deslizamos para o interior de outras casas subterrâneas e reparamos que as diferentes ocupações das casas deixaram sucessivas camadas arqueológicas. Encontramos resquícios de pintura, pictogramas e ideogramas em suas paredes e carretéis sonoros enterrados.

Descodificar estes signos cismáticos é MDB.


[Há resquícios de um antigo culto à Pã na musica ritual marroquina, o que mostra que uma Restauração se fez necessária. A primeira operação é a de dissolver a identidade cultural primária.]


Provavelmente você vai se perguntar (imagino que fale sozinho) se é possível definir uma competência territorial para essa produção?

Não. Não se trata de um movimento amparado na territorialidade como plataforma de operações. Pelo contrário: a idéia é a de espalhar redes autônomas de produção que possam intercambiar sons e sentidos tanto à distância como por meio de intervenções coletivas no eixo-realidade.

Substituir território por: "uma zona de interações eletromagnéticas, simulações, intercâmbios codificados de ideologia, legados do deslocamento traduzido para o interior do espaço entre os algoritmos que a eletromodernidade agrega" (DJ Spooky)


Hackers de psicofronteiras, numa instância final o que se busca são imagem(ns) de futuro com urgência,

O que vem a ser "humano"? Com que forças interage o elemento humano para construir e ler o eixo-realidade sobre o qual ele se desloca em coordenadas de espaço e tempo?

Um certo animismo fetichista nos impulsiona para o contato das máquinas, usadas para a liberação do Outro. Cada máquina, quando ligada na rede elétrica que a alimenta, se oferece: "progrAME-ME". A máquina é o feminino, e a sua promessa sussurrante do uso humano de seres humanos aponta para o retorno ao matriarcado.

Dissolvam-se identidades nas ruas, nas luzes, nos sons. A esquizofonia é o som-espelho-dentro-de-som-espelho-dentro-de-espelho. Conscientes de que o mapa não é o território (de cuja acepção militar e militarizante desde já abrimos mão), mas sim uma coisa inteiramente diversa - um nada ou quase uma nova arte.




This page is powered by Blogger. Isn't yours?